Casos e análises

Decisão e modelagem econômica

Análise

Como decisões comerciais afetam margem, caixa e valor

Metas e indicadores precisam representar as consequências econômicas das decisões, com hipóteses explícitas e comparação com o realizado.

Fernando Arruda | FQA Engenharia Econômica

Uma área pode cumprir a meta e a empresa terminar com um resultado pior. Isso acontece quando o indicador acompanha apenas uma parte da decisão e deixa de fora a receita, a capacidade, o caixa ou o risco que ela altera.

O modelo econômico explicita essas relações antes da escolha. Ele permite testar hipóteses e revê-las quando a realidade muda. Não garante o resultado.

Gastar menos pode significar contratar menos receita

EXEMPLO HIPOTÉTICO 1. Serviço de R$ 1 mil por mês, comissão de 10% da receita contratada e meta de até R$ 2 mil nessa parcela do custo de aquisição. Os exemplos deste artigo são independentes.
IndicadorContrato de 60 mesesContrato de 12 meses
Receita contratadaR$ 60 milR$ 12 mil
Comissão inicialR$ 6 milR$ 1,2 mil

O contrato anual atende à meta de desembolso inicial sem reduzir a comissão por real de receita. A comissão é apenas uma parcela do custo de aquisição, não o custo total.

Para manter cinco anos de receita com contratos anuais, seriam necessárias quatro renovações. Há novos custos e risco de saída. Um prazo contratado maior também não garante recebimento integral: inadimplência, rescisão e custo de servir continuam relevantes.

Custos de implantação e gestão têm bases diferentes

EXEMPLO HIPOTÉTICO 2. Cada equipe custa R$ 12 mil por mês, com capacidade integralmente utilizada.
AtividadeBase de distribuiçãoCusto por cliente
Implantação inicial5 novos clientes por mêsR$ 2.400, uma vez
Gestão contínua60 clientes ativosR$ 200 por mês

Em 60 meses de contrato cumprido, a implantação equivale a R$ 40 por mês por cliente. É uma diluição econômica sem juros, que não altera o desembolso inicial. Nesse exemplo, a gestão recorrente custa cinco vezes esse equivalente mensal.

A implantação precisa ser comparada à margem futura do cliente. A gestão recorrente exige receita suficiente para cobrir o custo de cada período. Dividir um custo mensal novamente por todos os meses do contrato reduziria artificialmente o valor apresentado.

Perdas recorrentes também alteram o valor do negócio

EXEMPLO HIPOTÉTICO 3. Perda de R$ 30 mil de caixa ao fim de cada ano, constante, sem crescimento e por prazo indefinido. Simulação simplificada de perpetuidade.
Taxa de desconto anualRedução de valor hoje
15%R$ 200 mil
20%R$ 150 mil
25%R$ 120 mil

A relação usada é perda anual dividida pela taxa de desconto. A taxa representa o retorno exigido em alternativas de risco semelhante. Os valores não são uma avaliação de uma empresa real.

Uma decisão sobre uma despesa anual pode ter um efeito maior sobre o valor presente. A conclusão depende da duração do fluxo, da taxa, do crescimento e do risco considerados.

Usar o modelo para orientar a execução

  1. Definir o resultado
  2. Testar as premissas
  3. Planejar as mudanças
  4. Medir o realizado
  • Relacionar preço, contratos, capacidade e custos aos efeitos esperados.
  • Variar uma premissa por vez para entender o que mais altera o resultado.
  • Escolher indicadores que acompanhem essas relações.
  • Comparar o realizado ao plano e à referência, atualizando as hipóteses.

Experiência anterior à FQA: Fernando Arruda modelou uma operação de serviços de gestão de energia, conectando receita por cliente, aquisição, implantação, gestão e duração contratual.

O indicador deve ajudar a verificar o mecanismo econômico. O trabalho só se completa quando as mudanças são executadas e seu efeito sobre o resultado é conferido.